A exoneração do então secretário da Fazenda, Luiz Claudio Gomes, não foi apenas mais um episódio de troca de comando na máquina pública. Foi, sobretudo, a materialização de um desgaste que já havia ultrapassado o limite do tolerável, tanto do ponto de vista administrativo quanto político. Em governos que se pretendem comprometidos com a boa governança, há momentos em que a permanência de um gestor deixa de ser uma opção e passa a representar um risco.
O estopim da crise não poderia ser mais eloquente. A decisão unilateral de promover exoneração coletiva na Corregedoria, órgão cuja essência repousa na integridade, na independência e na credibilidade, não apenas surpreendeu, como também lançou uma sombra de desconfiança sobre as reais motivações do ato, pois ainda que discricionário não poderia ameaçar a continuidade administrativa. Em ambientes institucionais, gestos dessa natureza não são neutros. Eles se comunicam. E, nesse caso, a mensagem foi particularmente ruidosa e preocupante.
As perguntas que emergem são inevitáveis e, até aqui, sem respostas convincentes: tratou-se de uma tentativa de interromper investigações em curso? Houve a intenção de proteger interesses particulares? Ou foi apenas um erro grave de gestão? Em qualquer das hipóteses, o dano institucional já está posto, e não é trivial.
Se o episódio do último dia 17 revelou no mínimo imprudência, o recuo do dia seguinte elevou o problema a outro patamar. O inédito cancelamento dos atos de exoneração não apenas fragilizou ainda mais a autoridade do então secretário, como também o colocou no epicentro de uma crise que já não era apenas administrativa, mas de confiança. Em gestão pública, inconsistência é sinônimo de instabilidade, e instabilidade cobra seu preço.
Nesse cenário, a decisão do governador de substituir o comando da Secretaria de Fazenda e nomear Luciana Mundim surge como uma iniciativa clara de restabelecer o mínimo de previsibilidade institucional. Mais do que uma troca de nomes, trata-se de um movimento para conter danos e reconstruir pontes internas, abaladas por uma sucessão de conflitos que vêm deteriorando o ambiente de trabalho e, por consequência, impactando o desempenho da própria arrecadação estadual.
Mas a solução não virá apenas com a mudança no comando. A crise escancarou problemas estruturais que vinham sendo empurrados com a barriga. A valorização da carreira fiscal, por exemplo, deixou de ser uma demanda corporativa para se tornar uma questão de justiça e de boa gestão de pessoas. Com salários entre os mais baixos do país entre seus pares, e sem a recomposição inflacionária aplicada aos demais servidores em 2026, os auditores fiscais enfrentam, na prática, uma redução real de seus rendimentos, situação que contraria não apenas o bom senso, mas também o entendimento consolidado no ordenamento jurídico.
Nesse contexto, ganha relevância o papel da Assembleia Legislativa. A tramitação do PL 5.234/26 não pode ser tratada como mais um item a mais na pauta. Trata-se de uma peça central para a recomposição de um equilíbrio que, hoje, claramente não existe. A interlocução direta do Executivo com o Legislativo será decisiva para que o tema avance com a importância e urgência que a situação exige.
Paralelamente, é imperativo que a Corregedoria, gota d’água de toda a turbulência, tenha garantidas as condições para atuar com independência, celeridade e transparência. Seja lá o que houve, precisa ser apurado e esclarecido. Não apenas para responsabilizar eventuais desvios e responsáveis, mas para restaurar a confiança em um dos pilares do controle interno do Estado, a Corregedoria.
Crises, quando bem enfrentadas, podem se transformar em pontos de inflexão. Mas isso exige mais do que respostas imediatas e promessas. Exige compromisso com a verdade, disposição para corrigir rumos e, sobretudo, atitudes e respeito às instituições. Minas Gerais está diante de um desses momentos. Resta saber se saberá transformá-lo em aprendizado, ou se deixará que ele se torne apenas mais um capítulo de desgaste evitável na administração pública.
O governador e a secretária Luciana certamente saberão fazer a melhor escolha.
MARCO TÚLIO DA SILVA
Presidente do Sindifisco/MG
SARA COSTA FELIX TEIXEIRA
Diretora-Presidente da AFFEMG



