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Secre­ta­ria de Fazenda: hora de recons­truir pon­tes inter­nas

Estado de Minas

Secre­ta­ria de Fazenda: hora de recons­truir pon­tes inter­nas

23/4/2026

A exo­ne­ra­ção do então secre­tá­rio da Fazenda, Luiz Clau­dio Gomes, não foi ape­nas mais um epi­só­dio de troca de comando na máquina pública. Foi, sobre­tudo, a mate­ri­a­li­za­ção de um des­gaste que já havia ultra­pas­sado o limite do tole­rá­vel, tanto do ponto de vista admi­nis­tra­tivo quanto polí­tico. Em gover­nos que se pre­ten­dem com­pro­me­ti­dos com a boa gover­nança, há momen­tos em que a per­ma­nên­cia de um ges­tor deixa de ser uma opção e passa a repre­sen­tar um risco.

O esto­pim da crise não pode­ria ser mais elo­quente. A deci­são uni­la­te­ral de pro­mo­ver exo­ne­ra­ção cole­tiva na Cor­re­ge­do­ria, órgão cuja essên­cia repousa na inte­gri­dade, na inde­pen­dên­cia e na cre­di­bi­li­dade, não ape­nas sur­pre­en­deu, como tam­bém lan­çou uma som­bra de des­con­fi­ança sobre as reais moti­va­ções do ato, pois ainda que dis­cri­ci­o­ná­rio não pode­ria ame­a­çar a con­ti­nui­dade admi­nis­tra­tiva. Em ambi­en­tes ins­ti­tu­ci­o­nais, ges­tos dessa natu­reza não são neu­tros. Eles se comu­ni­cam. E, nesse caso, a men­sa­gem foi par­ti­cu­lar­mente rui­dosa e pre­o­cu­pante.

As per­gun­tas que emer­gem são ine­vi­tá­veis e, até aqui, sem res­pos­tas con­vin­cen­tes: tra­tou-se de uma ten­ta­tiva de inter­rom­per inves­ti­ga­ções em curso? Houve a inten­ção de pro­te­ger inte­res­ses par­ti­cu­la­res? Ou foi ape­nas um erro grave de ges­tão? Em qual­quer das hipó­te­ses, o dano ins­ti­tu­ci­o­nal já está posto, e não é tri­vial.

Se o epi­só­dio do último dia 17 reve­lou no mínimo impru­dên­cia, o recuo do dia segu­inte ele­vou o pro­blema a outro pata­mar. O iné­dito can­ce­la­mento dos atos de exo­ne­ra­ção não ape­nas fra­gi­li­zou ainda mais a auto­ri­dade do então secre­tá­rio, como tam­bém o colo­cou no epi­cen­tro de uma crise que já não era ape­nas admi­nis­tra­tiva, mas de con­fi­ança. Em ges­tão pública, incon­sis­tên­cia é sinô­nimo de ins­ta­bi­li­dade, e ins­ta­bi­li­dade cobra seu preço.

Nesse cená­rio, a deci­são do gover­na­dor de subs­ti­tuir o comando da Secre­ta­ria de Fazenda e nomear Luci­ana Mun­dim surge como uma ini­ci­a­tiva clara de res­ta­be­le­cer o mínimo de pre­vi­si­bi­li­dade ins­ti­tu­ci­o­nal. Mais do que uma troca de nomes, trata-se de um movi­mento para con­ter danos e recons­truir pon­tes inter­nas, aba­la­das por uma suces­são de con­fli­tos que vêm dete­ri­o­rando o ambi­ente de tra­ba­lho e, por con­se­quên­cia, impac­tando o desem­pe­nho da pró­pria arre­ca­da­ção esta­dual.

Mas a solu­ção não virá ape­nas com a mudança no comando. A crise escan­ca­rou pro­ble­mas estru­tu­rais que vinham sendo empur­ra­dos com a bar­riga. A valo­ri­za­ção da car­reira fis­cal, por exem­plo, dei­xou de ser uma demanda cor­po­ra­tiva para se tor­nar uma ques­tão de jus­tiça e de boa ges­tão de pes­soas. Com salá­rios entre os mais bai­xos do país entre seus pares, e sem a recom­po­si­ção infla­ci­o­ná­ria apli­cada aos demais ser­vi­do­res em 2026, os audi­to­res fis­cais enfren­tam, na prá­tica, uma redu­ção real de seus ren­di­men­tos, situ­a­ção que con­tra­ria não ape­nas o bom senso, mas tam­bém o enten­di­mento con­so­li­dado no orde­na­mento jurí­dico.

Nesse con­texto, ganha rele­vân­cia o papel da Assem­bleia Legis­la­tiva. A tra­mi­ta­ção do PL 5.234/26 não pode ser tra­tada como mais um item a mais na pauta. Trata-se de uma peça cen­tral para a recom­po­si­ção de um equi­lí­brio que, hoje, cla­ra­mente não existe. A inter­lo­cu­ção direta do Exe­cu­tivo com o Legis­la­tivo será deci­siva para que o tema avance com a impor­tân­cia e urgên­cia que a situ­a­ção exige.

Para­le­la­mente, é impe­ra­tivo que a Cor­re­ge­do­ria, gota d’água de toda a tur­bu­lên­cia, tenha garan­ti­das as con­di­ções para atuar com inde­pen­dên­cia, cele­ri­dade e trans­pa­rên­cia. Seja lá o que houve, pre­cisa ser apu­rado e escla­re­cido. Não ape­nas para res­pon­sa­bi­li­zar even­tu­ais des­vios e res­pon­sá­veis, mas para res­tau­rar a con­fi­ança em um dos pila­res do con­trole interno do Estado, a Cor­re­ge­do­ria.

Cri­ses, quando bem enfren­ta­das, podem se trans­for­mar em pon­tos de infle­xão. Mas isso exige mais do que res­pos­tas ime­di­a­tas e pro­mes­sas. Exige com­pro­misso com a ver­dade, dis­po­si­ção para cor­ri­gir rumos e, sobre­tudo, ati­tu­des e res­peito às ins­ti­tui­ções. Minas Gerais está diante de um des­ses momen­tos. Resta saber se saberá trans­formá-lo em apren­di­zado, ou se dei­xará que ele se torne ape­nas mais um capí­tulo de des­gaste evi­tá­vel na admi­nis­tra­ção pública.

O gover­na­dor e a secre­tá­ria Luci­ana cer­ta­mente sabe­rão fazer a melhor esco­lha.

MARCO TÚLIO DA SILVA
Pre­si­dente do Sin­di­fisco/MG

SARA COSTA FELIX TEIXEIRA
Diretora-Presidente da AFFEMG



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