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O que a final do Super Bowl 2026 tem a nos dizer?

Marco Túlio da Silva

O que a final do Super Bowl 2026 tem a nos dizer?

4/3/2026

O Super Bowl LX aconteceu em fevereiro, na Califórnia. Mais que uma partida, a final da NFL se tornou um espetáculo midiático, o que faz da decisão do futebol americano o terceiro maior evento esportivo do planeta, atrás da final da Copa do Mundo e da Olimpíada. Mas afinal, o que a final do Super Bowl 2026 tem a nos dizer?

Criada em 1920, a National Football League – NFL demorou cerca de 40 anos para se firmar (persistência), em 1960 surge a American Football League (AFL). As duas ligas poderiam se digladiar em luta por espaço, mas optaram pelo diálogo (negociação) e chegaram a um acordo, intermediado pela televisão americana, e, a partir de 1967, os campeões de cada uma das Ligas passaram a decidir, em jogo único, quem é o melhor do país.

Em 1970, NFL e AFL se fundiram para criar nova NFL. A liga foi dividida em duas conferências, a National Football Conference (NFC) e a American Football Conference (AFC), cujos vencedores se enfrentam no Super Bowl. Este ano, o San Francisco 49ers representou a Conferência Nacional, enquanto o Kansas City Chiefs representou a Conferência Americana.

Foi neste evento que a TV a cores foi definitivamente implantada nos EUA, e é nele que são exibidas as peças publicitárias mais caras do mundo.

Este ano o show de Bad Bunny no Super Bowl 2026 se transformou de apresentação musical em tema central de debates culturais e políticos. A performance destacou o uso predominante do espanhol, referências a questões de imigração e símbolos ligados à identidade latina, e foi interpretado como reação a políticas de Donal Trump. Esse é o tema. Desde sua eleição para o atual mandato Trump ocupou a mídia, ou falas e atos dele são notícia, ou os comentários em reação a ele são notícia. Seria esse o foco que o mundo deveria ter?

E o que ocupa a mídia e o foco em Minas?

Fala-se do governador, de candidatos a governador e de diversos outros atores políticos. Também se fala de dias: dias bons, dias ruins, dias de chuva e Dias Toffoli. Fala-se de atrocidades, feminicídios, fraudes e outras mazelas, mas qual é nosso principal dilema? Em que deveríamos focar?

A desigualdade

Sim, no fundo Bad Bunny falou sobre a desigualdade que atinge os latinos, mas a repercussão focou em Trump, como agora no ataque ao Irã. As questões do Banco Master e das barbaridades no Brasil colocam pessoas poderosas no centro, mas o verdadeiro dilema é a desigualdade e o poder.

Temos alimento para todos, mas alguns estão obesos e outros desnutridos. Temos riqueza para todos, mas alguns estão super ricos e outros miseráveis. Por falar em riqueza, como estão as finanças públicas em Minas?

Ao longo dos últimos anos, Minas Gerais tem apresentado constante perda de capacidade de desenvolvimento sustentável, enfraquecimento da articulação federativa e retração do papel do Estado na promoção de direitos sociais, por outro lado crescem benefícios fiscais e dívida pública. Isso beneficia alguns (os benefícios fiscais são para os donos de grandes grupos empresariais, assim como a dívida pública gera renda para os donos do dinheiro, no fundo são os mesmos, os donos do poder) e prejudica milhões de pessoas que com a desigualdade dependem cada vez mais dos serviços públicos.

O debate aqui não é ideológico ou partidário, mas republicano. A dívida do Estado com a União saiu de aproximadamente R$ 114 bilhões em 2019 para cerca de R$ 179 bilhões em 2025, e quem ganha com isso não é o povo nem o funcionalismo público. Os primeiros clamam por melhor qualidade do gasto público, e os últimos em sua maioria amargam salários e benefícios que estão bem distantes dos supersalários, muitas vezes, ano após ano, sem a devida recomposição da perda do poder do compra decorrente da inflação.

A propósito dos supersalários, um médico da rede pública ganha por mês o mesmo que alguns plantões médicos na rede privada. O professor da rede pública ganha por mês o mesmo que algumas aulas em cursinhos. Também o policial, juiz, promotor, procurador, auditor fiscal ganham bem menos que seus pares no setor privado. Sobre eventuais distorções, elas são exceções e existem tanto no serviço público como na iniciativa privada.

Entre as empresas de capital aberto que fazem parte do Ibovespa, principal índice da B3, a remuneração do diretor executivo ou presidente (CEO) de tais empresas ultrapassa os milhões de reais. A questão aqui é: porque tanta diferença entre o salário mínimo (R$1.621) e os supersalário de milhões de reais.

Privatizações, concessões e custo social

Em Minas, no passado recente o governo tem defendido a redução da chamada máquina pública e a privatização de empresas estratégicas e de significativo papel social como Cemig e Copasa. O processo foi marcado por controvérsias jurídicas e institucionais, como a suspensão judicial do leilão de usinas da Cemig por ausência de autorização legislativa e de referendo popular, mecanismo criado no governo Itamar Franco. Isso não é sobre liberalismo ou sobre governo, é sobre desigualdades.

Quem vive na periferia ou na zona rural, e que muitas vezes ainda luta pelo acesso a energia elétrica, água ou esgoto sabe muito bem o que a Cemig e Copasa representam, mesmo com as limitações que existem.

No campo da infraestrutura, a ampliação de concessões à iniciativa privada veio acompanhada de elevação de tarifas e aumento do custo de acesso a serviços públicos, especialmente rodovias, sem a propalada melhoria de qualidade. Em regiões com menor oferta de alternativas de transporte, o impacto recai diretamente sobre renda, mobilidade e acesso a direitos básicos. Isso não é sobre privatização ou parcerias público-privadas, é sobre desigualdades.

Renúncias fiscais, Lei Kandir e o esvaziamento da Administração Tributária

Ponto sensível da política fiscal estadual é a renúncia de receitas (gasto tributário). Sim, quando se faz uma renúncia de receita temos um gasto público, gasto tributário. Além do custo social do acordo firmado com a União envolvendo créditos da Lei Kandir na ordem de R$ 135 bilhões, em que a contrapartida de benefícios fiscais foi reduzida a pó, para receber em suaves parcelas, o volume de benefícios fiscais cresce de forma acelerada, com contrapartidas que merecem avaliação mais aderente ao benefício social gerado, ou que deveria ser.

A renúncia de ICMS saiu de cerca de R$ 4,7 bilhões em 2018 para R$ 15,4 bilhões em 2024, com estimativas próximas de R$ 27 bilhões em 2026. No IPVA, os benefícios saltaram de R$ 95 milhões para aproximadamente R$ 2,5 bilhões no mesmo período. E qual a contrapartida em benefício social a justificar este gasto tributário?

Fonte: Sindifisco

O Tribunal de Contas do Estado tem apontado reiteradamente a necessidade de maior transparência e avaliação de resultados dessas políticas, especialmente quanto ao impacto real em geração de empregos, desenvolvimento regional e arrecadação futura. A questão aqui é sobre qualidade do gasto público, e sobre colocar a constituição dentro do orçamento. É preciso olhar para a qualidade do gasto com coerência republicana, inclusive com acompanhamento das entregas de políticas públicas de forma séria e com visão de Estado.

É claro que o contexto fiscal impõe restrições reais, mas transformar a discussão em um duelo entre onde cortar é simplificar demais assunto sério, complexo e estruturante. Qualidade do gasto passa por qualidade das escolhas públicas. Por falar em escolhas públicas, contingenciamentos orçamentários têm atingido várias áreas estratégicas em Minas Gerais. Em 2025, cerca de R$ 1,1 bilhão foi bloqueado, afetando inclusive a Receita Estadual, apesar de ser atividade reconhecida

constitucionalmente como essencial ao funcionamento do Estado. O enfraquecimento estrutural da Receita Estadual, com perda de quadros técnicos com aposentadorias, além da evasão de novos talentos (Auditores Fiscais que saem por encontrarem fora melhores condições de trabalho e de remuneração), gera um efeito paradoxal: reduz-se a capacidade de arrecadar enquanto a necessidade de receita só aumenta.

O resultado é um ciclo de compressão. Sem estrutura fiscal robusta, políticas públicas se tornam reativas e não estratégicas. Sem política pública consistente, o desenvolvimento perde direção.

Minas tem avançado pouco rumo a um desenvolvimento estruturado e menos desigual. Reverter esse cenário exige recompor a capacidade fiscal do Estado, fortalecer a coordenação federativa e recolocar a Receita Estadual no centro da estratégia de desenvolvimento do estado.

Não há sociedade organizada e desenvolvida sem direitos, não há direitos sem Estado, não há Estado sem tributos, não há tributos sem uma Administração Tributária e uma Fiscalização bem estruturada e com boas condições de trabalho. Isso não é sobre direito e administração pública, é sobre pessoas e sociedade.

Talvez alguém queira saber o resultado do Super Bowl 2026, apesar de já não ser novidade. Com uma partida defensiva dominante, o Seattle Seahawks venceu o New England Patriots por 29 a 13 e levou seu segundo título da NFL.

Este artigo é uma reprodução de O Fator. Para ler na home do portal, clique aqui.


Seattle Seahawks venceu o New England Patriots no Super Bowl. Foto: Kathryn Riley/NFL

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